sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sobre o implícito

Para entender o implícito, acho legal esta letra do Bob Dylan, onde, o mais importante, ele diz em quatro palavras, que não dizem nada e dizem tudo. Serve também, quase qualquer conto de Hemingway, eu acho. Mas esses não dá para postar aqui. Tem um tão legal, The Big Two-Hearted River, muito longo, dividido em duas partes, que trata de um jovem que sai, sozinho, dois dias, para pescar. A descrição do rio, as águas, a pesca, etc., é tão boa que para mim isso foi tudo. Só anos depois li que nesse conto estava implícito o assunto da guerra. Não me lembro bem se o jovem tinha escapado de ir à guerra, ou tinha um trauma de guerra. Mas de tão implícito, ou de tão maravilhoso que era "o superficial", eu não percebi. Bom, nas quatro palavras "vazias" do Bob Dylan dá para perceber que o "narrador" (vale isso para letras de música?) está dizendo tudo menos o mais importante.

Most of the time
I'm clear focused all around,
Most of the time
I can keep both feet on the ground,
I can follow the path, I can read the signs,
Stay right with it, when the road unwinds,
I can handle whatever I stumble upon,
I don't even notice she's gone,
Most of the time.

Most of the time
It's well understood,
Most of the time
I wouldn't change it if I could,
I can't make it all match up, I can hold my own,
I can deal with the situation right down to the bone,
I can survive, I can endure
And I don't even think about her
Most of the time.

Most of the time
My head is on straight,
Most of the time
I'm strong enough not to hate.
I don't build up illusion 'till it makes me sick,
I ain't afraid of confusion no matter how thick
I can smile in the face of mankind.
Don't even remember what her lips felt like on mine
Most of the time.

Most of the time
She ain't even in my mind,
I wouldn't know her if I saw her
She's that far behind.
Most of the time
I can't even be sure
If she was ever with me
Or if I was with her.

Most of the time
I'm halfway content,
Most of the time
I know exactly where I went,
I don't cheat on myself, I don't run and hide,
Hide from the feelings, that are buried inside,
I don't compromised and I don't pretend,
I don't even care if I ever see her again
Most of the time.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Patrícia e Isadora chegaram a casa às três horas e encontraram o pai e o irmão sentados na sala de estar tomando um café. Poderia ser uma reunião agradável entre pai e seus três filhos. Também poderia ser que os objetivos dos filhos não fossem alcançados. Tudo isso dependeria do curso do encontro.
— E então, pai, pensou bem no assunto? — perguntou Isadora. Seria bastante sensato que ele houvesse decidido como os três filhos desejavam.
— Querida filha minha — respondeu seu Leopoldo ao se remexer na cadeira e calmamente levantar — há mais coisas entre o céu e a terra do que pode constatar a sua jovem irrequieta filosofia. Vamos com calma com esse tal assunto de vocês.
Fez-se sentir o silêncio na sala e os três se entreolharam. Seu Leopoldo sabia que eles estavam cruzando os olhares, mesmo estando de costas para todos, servindo-se de café na bancada. Não iriam conseguir o que queriam assim tão fácil. Não é que quisesse teimar com o pedido dos filhos. No fundo sabia que eles tinham alguma razão. Também sabia que existiam motivos bem pessoais e próprios da personalidade de cada filho que alçavam seus objetivos. Não queria se render a eles.
Devolveu, então, a Isadora a primeira parte de seu argumento questionando-a sobre os destinos daquela casa, caso ele saísse de lá. Ela titubeou e tentou esconder dele que venderiam a casa e que parte do dinheiro seria usada para pagar a dívida de sua empresa. Mais silêncio arrancou olhares cruzados dos três filhos. Isadora calou-se. Patrícia, então, aventurou-se:
— Mas pai, ainda que esse seja o problema de Isadora, estamos pensando em sua saúde. Será que dá para pensar nisso também, por favor, e parar de teimar com o que não tem mais tanta importância?
Seu Leopoldo sentou-se na mesma poltrona novamente e mirou o dia lá fora. Estava frio. Por segundos passou em sua mente Patrícia quando pequenininha. Sempre argumentadora, prestativa e concentrada. Boa menina. Olhou para a filha com carinho e disse-lhe:
— Bem, é verdade, mas também é certo que se eu for para lá você vai precisar estar menos comigo e poderá dedicar mais tempo ao seu trabalho e a sua família, né?
Patrícia ficou visivelmente contrariada e procurou demover o pai da idéia de que não o visitaria. Claro, sabia que isso não era completamente verdade. Ele estava certo. Fazer o quê, se estava difícil essa vida de profissional, mãe, dona-de-casa e filha de pai que gosta de chamegos.
Seu Leopoldo deu um risinho escondido. Olhou para o filho mais velho, Elias, como que esperando o desfecho.
Elias era providente e sensato. Seu Leopoldo sabia que os interesses dele eram bem mais obscuros, no entanto. Esperou para ver como seriam revelados. Elias fez um movimento levando a mão direita à testa. Olhou para fora com ar de preocupação.
— Pois é, pai. Só que parece que dessa reunião de família haverá de sair uma decisão. Somos três contra um, aqui. Sabes que será melhor para você estar com pessoas da sua idade, divertindo-se e não mais apegado ao trabalho e à empresa. Eu posso tocar o negócio muito bem sozinho.
Seu Leopoldo não moveu uma expressão sequer. Entristecido estava por não poder ouvir dos filhos seus sinceros motivos. Mais triste ainda ficava em saber que eles preocupavam-se tão pouco com o seu bem-estar. Lamentou que a esposa não estivesse mais presente. Ouviu de Elias que mesmo que ela estivesse lá a decisão estaria tomada. Seu Leopoldo foi buscar outro café. Serviu-se. Virou-se para os filhos, olhou-os com carinho por um instante e encerrou o assunto:
— Essa casa é minha alma. A empresa ainda é meu motivo de viver ,e, as visitas da Patrícia e dos netos são minha maior alegria. Nenhum lugar, por mais aconchegante, alegre, confortável substituirá o que me resta. Desculpem esse velho gagá, mas daqui só para o céu! Estamos conversados!

domingo, 22 de junho de 2008

3 X 1

- Nem por um decreto.
O pai não queria ir para um asilo de jeito nenhum.
- Não estou velho.
Os irmãos entreolharam-se. Cléber pigarreou. Era o primogênito. Fumante. Abriu a boca para dizer algo, mas Verinha fez-lhe um sinal com a mão.
- Papi, ninguém aqui está dizendo que você está velho -, Verinha tinha um jeitinho doce de falar, os olhinhos sempre sorrindo. Os irmãos concordaram. A mana continuou:
- Pensamos no seu bem. O senhor não gosta de dançar? Pois então, lá tem bailes da terceira idade aos finais de semana. Pelo menos o senhor se diverte, conhece pessoas novas.
- Gosto da minha casa. Daqui, só pro túmulo.
- Mas pai... -, Cléber começava a impacientar-se. Remexeu-se na cadeira. Apalpou os bolsos em busca do cigarro. Novamente Vera entrou em cena:
- Tem até hidroginástica.
- E enfermeiras gostosas -, completou Rita, lixando as unhas. Os irmãos repreenderam-na.
- Gente, o que foi que eu disse de errado?
O pai riu. Não era um riso prazeroso, mas sarcástico.
- Não vendo, não troco, não dou. Esta casa é minha e repito: daqui, só pra sete palmos abaixo da terra.
Estava lúcido, o velho desgraçado. O jeito era ganhá-lo no argumento.
- Pai, você já nem consegue subir as escadas, passa o dia sentado na sala. Pra quê precisa de um casarão desses? Dá pra construir três prédios só no terreno dos fundos.
Verinha cutucou o irmão. Será que dava para ser mais sutil?
- Vocês querem é me enterrar vivo.
- Ai, papi, que idéia! Nós vamos lá visitar o senhor sempre que der, não vamos? Ó, viu? Jamais o abandonaremos.
- Nunca vêm me ver... nunca -, balbuciou o velho para si. E soltou um pum.
O cheiro se espalhou pelo ar.
- Papai! -, Rita torceu o nariz.
- Velho porco -, ofendeu Cléber.
Verinha nada disse.
Seu Antenor bateu com a mão na perna, deu o assunto por encerrado. Pediu a bengala. Levantou-se trêmulo, encaminhou-se para o sofá, não sem antes retrucar:
- Se o lugar é assim tão bom, porque não vão morar lá vocês?

O combate

Cumprimentaram-se. Todos os dias, “Olá, tudo bem?”, assim davam início à conversa. Almoçavam juntos pontualmente no mesmo horário, na mesma mesa do asilo, uma mesmice sem fim. Mas isso não impedia de saudarem-se como se não encontrassem um ao outro há anos. Andavam repetitivos, os amigos de infância. Gagás?

- Tudo. Só peço para não falar no Internacional -, gemeu o sofredor. Os colorados haviam perdido nos pênaltis.

Antenor desanimou, adorava falar do time do outro. Torcia contra o Inter muito mais do que a favor do Grêmio. Era um enchedor de saco fenomenal. Juvenal já o conhecia e às suas implicâncias, por isso cortava seus naipes tão logo sentavam à mesa. Almoçavam todos os dias juntos, já contei isso?

O velho gremista sugeriu falarem sobre o Lula, então. Taí outra coisa que não caía bem na mesa. De futebol, fala-se numa boa. Agora, de política? Não dá. A política não muda nunca. E de mesmice já bastava a rotina do asilo.

A opinião de Antenor sobre o presidente, o colorado Juvenal também repudiava. Não que discordasse, é que diariamente, os dois almoçavam juntos e falavam sobre política. Política e futebol. Citar sempre as mesmas coisas cansa o interlocutor. Antenor viu um passarinho pousar na grade da varanda e sugeriu o assunto morcego, “Que morcego? O Batman?”, pensou Juvenal, mas deixou o outro seguir com a idéia.

- Os bichinhos de estimação do Batman. Morcegos verdadeiros. Eles fizeram casa deles no meu sótão. Mas é como se fosse na minha casa. Na minha cabeça.

Juvenal riu. Esse Antenor vivia nas nuvens. Trouxeram uma gamela com feijão. Juvenal e Antenor se enfrentaram com olhos opacos. Os dois gostavam do toucinho que boiava no caldo aguado. Sempre um pedaço apenas e aquela guerra na mesa. Dessa vez, Antenor levou a melhor. Juvenal emburrou-se.

- Eu sempre soube que tu tinha morcego nesse cérebro. Há muito tempo – provocou.

Antenor não ouviu. Deliciava-se com o pedaço suculento. Ria por dentro. Do que o outro estava falando, sobre morcegos? Começou a falar sobre o Internacional e o Lula. Juvenal, ainda pensando no toucinho:

- Isso não vale.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Atitude

Cíntia e Alfredo já haviam chegado. Sentados na varanda, tomavam chimarrão com o pai enquanto esperavam Olívia, a irmã mais nova, encostar o carro.
- Oi pessoal, desculpem o atraso – disse ela ao subir o último degrau. Beijou e abraçou o pai que, depois de perguntar sobre a viagem, pediu-lhe que sentasse ao seu lado. Aquela conversa não seria fácil, por certo.
- Olívia – falou Alfredo, o irmão mais velho. – Já adiantei à Cíntia que está muito difícil cuidar da estância. E prosseguiu a falar sobre como as coisas mudaram desde que a mãe morrera. Dois homens sozinhos em uma casa, o pai doente, sem poder ajudar com nada, nem mesmo com os animais.
- Sei disso. Por que, então, não vendemos a fazenda e compramos um sítio? – sugeriu Olívia. - É menos trabalhoso. Mas Alfredo, de olhos baixos, disse-lhes que já estava cansado de viver no interior. Na verdade, havia conseguido um emprego na serralheria da cidade.
- Mas o pai precisa de companhia – falou Cíntia. – Alguém que cuide dele o tempo inteiro.
Cíntia morava na cidade vizinha com o marido e dois filhos.
- Uma mulher seria o ideal – precipitou-se Alfredo.
-Talvez – respondeu Olívia. – Ou alguém preparado para cuidar com carinho de pessoas idosas – e logo emendou: - na verdade, de pessoas especiais.
O pai, que ouvia a tudo quieto, sabendo do peso que se tornara para os filhos, primeiro disse-lhes que ele havia cuidado do nono deles até o fim. Mas entendia que os tempos eram outros e que cada um tinha seus compromissos e a própria família. Por fim, comunicou o consentimento que todos, entre receios e dor, queriam ouvir:
- Façam comigo o que acharem melhor.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Confissão

Por Mauro Paz

Minha paixão é doida, plena e incondicional. Não podia ser diferente. Ainda novo, invadiu-me e fez de mim um eu. Escravo voluntário me formei. Com o tempo, ela me ensinou as cores, as ruas, as dores e a compreensão de que posso e preciso saber sempre mais.

Mesmo a maltratando, vez que outra, nunca deu as costas. Ao contrário, me afaga e alimenta. Sem ela eu nada seria. Por ela vivo e através dela viverei.

Um dia é pouco pra homenagear ela que todo dia nos faz falar.

Vida longa à Língua Portuguesa!


10/06 – Dia da Língua Portuguesa
Obs.: Desculpem-me por abrir o coração aqui neste espaço, mas precisava desabafar.

domingo, 8 de junho de 2008

Exercício Diálogo

Fileira 9, junto ao maldito corredor. Na poltrona do centro, a mãe. Na janela, o menino.



- Fica tranqüilo, meu filho, o logo chegamos.

- E se o avião cair na água, por onde saímos?



A mãe retira o folheto explicativo inserido à frente do acento e indica ao menino.



- Pela saída de segurança, duas fileiras adiante.

- Mas se a asa estiver pegando fogo?

- Há saídas frontais.

A mãe repara minha apreensão.

- Não repare, é a primeira vez que ele voa.

- Quando pequeno também tinha medo de voar. Hoje faz parte da minha vida.

- Que maravilha. No que trabalha?

- Sou piloto.

A mãe cutuca a criança.

- Viu, meu filho, o moço é piloto. Voa todo santo dia e nunca lhe aconteceu nada.

O menino admira-me boquiaberto.

- Bem. Passei por alguns sustos.

- Sustos?

- Certa vez, ainda na escola de aviação, voava distraído, baixo. Quando dei por mim, estava preso na chaminé do Gasômetro.

- Nossa. Não me lembro de ter visto nada nos jornais – diz a mãe.

- Abafaram o caso.

- Por que o não está pilotando? – tasca o menino.

- Não é essa minha companhia, estou de carona.

- Pra qual companhia trabalha? – diz a mãe.

- VASP.

- AVASP não faliu?

- Sou um dos últimos lá. Fazemos apenas vôos restritos para o governo – aproximo-me da mulher – Informação confidencial, hein?

sábado, 7 de junho de 2008

Leopoldo ganha a aposta?

Nunca vi tanto luxo. Mulheres desfilam de chapéu. Ficam lindas assim. Que delícia o champagne, vou tomar mais uma taça. Chego a me sentir feliz nesta tarde azul-de-maio. Quase não faz frio. Quanta gente veio ao prado. Não sabia que Grande Prêmio era bom. Não fosse o sonho, não teria vindo. Há tempos não sonhava com ela. Mas ontem, de novo, aconteceu. Vestida de branco, entrou no quarto, sentou-se na cama e ficou me olhando. Não sinto medo quando aparece. Desta vez, falou sobre cavalos. Perguntei se eram os da estância. Enigmática, sorriu. Cavalos em dia de festa – sussurrou - jogue no número oito. Quis saber mais; em vão. E antes que eu pudesse abraçá-la, sumiu. É sempre assim, então acordo e penso em tantas coisas. Até hoje não me conformo, partiu de repente. Foi numa tarde de maio, como esta. Só eu sei como sofri ao receber a notícia da sua morte. Culpa e remorso, mas não quero pensar nisso agora. Hoje de manhã, abri o jornal e lá, na página do turfe, a foto do cavalo branco, o número oito do páreo principal. Não acreditei. A legenda da foto dizia tratar-se de Ciclone, o azarão. Num impulso, decidi. Vou apostar neste cavalo.............................................................................. e se alguém me vir apostando, o que vão achar? pensando bem, ninguém tem nada a ver com isso, dia de grande prêmio, preciso ter coragem, nem sei fazer a aposta, deve ser por aquela escada, um entra e sai de gente, a mulher de lábios carnudos me olha, os seios pulam do decote, perfeitos, quero tocá-los, gosto destes seios, duas taças, o champagne a escorrer, os bicos dois morangos a crescer na minha boca, ela sorri, me faz sinal, as faces queimam, vermelho-morango, não vou olhar, quem é o homem? acompanhada? disfarço, cadê o guichê? faço logo a aposta, assisto o páreo e vou embora, número oito, não foi o que disse, no sonho, minha falecida esposa? melhor me apresssar, quase cinco horas... apostei dinheiro grande, devo ter louquecido, tudo no azarão, foi dada a largada, os cavalos correm, Ciclone! quero gritar mas não grito, na estância eu no cavalo baio, o nome era Ciclone, agora lembro, a casa na beira do riacho, longe onde ninguém podia ver, nós dois em pelo sobre o pelo do cavalo baio, e se eu te perder? te perguntava, sem nada enxergar, neblina mansa cobrindo o campo, cavalos correm embolados, não consigo ver Ciclone, nuvem de pó e cascos, por que esqueci o binóculo, cavalos viram a curva, parecem todos juntos, locutor grita, não entendo, Escorial ultrapassa Aragon... Escorial na dianteira, Ciclone, vai Ciclone, reta final, Ciclone se aproxima pela esquerda, ouvi direito? Meu São Domingos! dá uma força, coração dispara, quero ganhar, só mais cinqüenta metros, delírio geral, em segundos o resultado.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Criar espaço para ?

O condomínio é comum. Incomum é a decoração do apartamento. Tintas, plantas, móveis, livros, tudo devidamente desorganizado. O apartamento é financiado. Há passarinhos, mas não há gaiolas. Não há cama, só há rede. No olho do furação, um computador. Solitário. É a mais valia, escrita, descrita. O apartamento ainda não está pago. Já precisa de reforma, reboco mofado, fios vermelhos, azuis, tudo jogado. O vidro da janela também está trincado. Mas é tudo muito limpo, banheiro limpo, muitos banhos. O jardim é no meio do apartamento, com mudas de árvores, flores, trepadeiras e fotos antigas.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Criar um espaço para ...

A luz do salão principal é fosca. O lugar é amplo e bem arejado, com janelões de ferro e vidro, ornados com cortinas clássicas em tons pastéis e marinho, bom para dissipar a fumaça dos charutos e das velas. Há muitos lugares para sentar, normalmente ocupados. Grandes vasos de vidro, que nascem do chão, abrigam ramos de lírio e copos-de-leite. Das paredes pendem telas antigas, abstratas, pintadas pelo mesmo alguém cujo nome não é legível. Ao lado da porta principal está o piano, sobre ele, os cinzeiros limpos. No fundo da sala, o bar. Bancos altos e estofados, bancada de madeira lustrosa e escura como o assoalho, muitas bebidas. Sentado no último banco, um homem calvo acaricia nostalgicamente o saxofone, fazendo-o gemer alto.
Um espaço para X

Uma sala ampla e limpa, mobiliada com economia. Um sofá de linhas retas, forrado com veludo preto, posicionado de frente para uma TV plasma fixa na parede azul hortência. Dois pufes brancos. Um móvel baixo, de madeira escura, apóia um aparelho de DVD e muitos filmes. Uma mesa redonda, com tampo acrílico transparente, suportada por um único pé de base também redonda. Duas cadeiras, estilo Luís XV. Sobre a mesa, uma orquídea branca. Uma reprodução de Escher domina a parede oposta à TV. O assoalho de tacos claro é despido de tapetes. Na parede em frente à porta de entrada, uma grande janela com as cortinas abertas traz a paisagem urbana para o interior. Por cima dos edifícios antigos vê-se o rio, ao longe. Ao lado da porta, um esguio totem de pedra da altura de um homem. Uma única porta liga a sala ao resto do apartamento.
Stela Rates

domingo, 25 de maio de 2008

criar um espaço para ... (ou o que é o que é)

Dois chinelos sobre a mesa. Um fogão velho com o forno aberto. Quase debaixo da mesa, uma batedeira quebrada. Uma metade de um tapete persa. Uma geladeira azul que guarda sapatos e roupas. Uma moldura vazia na parede. Uns trocados e um caderno de culinária sobre a pia. Um pôster colorido mas descascado. Uma televisão como floreira. Um cheiro de mofo misturado com vegetais frescos. Um cinto novo preso ao lustre servindo de forca. Dois chinelos sobre a mesa.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A personagem vai ao boteco

18:00 – O bar está lotado. Ângelo chega pede uma mesa e uma cerveja. O garçom consegue a mesa, mas esquece da cerveja. Ao contrário traz uma coxinha. Sem reclamar, Ângelo come a coxinha bem devagar. A devora, engole toda. Horas antes tivera se encontrado com ela. Mas agora ele só devora. E encontra camarões escondidinhos. Escuta música. Não há ninguém para conversar. Escuta a música e batuca.

18:37 – Ela chega. A coxinha vira coxão. Cerveja? Ângelo quer beber Maria. Mas Maria está sem interesse. Angelo não entende. Onde foi que errou? Angelo está sem colarinho. Enfim, sem colarinho ele bebe Maria gelada, acha tudo ótimo e vai para casa sonhar com o resto. Que resto?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Criar espaço para...

O quarto tem um quê de escuro, apesar da janela aberta para o sol das onze. Na cama de ferro, dir-se-ia uma cama dupla de hospital, dois travesseiros brancos muito próximos, e a maior parte de um cobertor velho e xadrez, no ensaio da queda.

Um vinil gira na vitrola. Das caixas de som chega uma cantoria de monstro, kommienezuspadt, kommienezuspadt.

Pende de um prego no teto o que chamam mosquiteiro, e de um na parede o que chamam Marlon Brando (montado em motocicleta).

Sobre a mesa-de-cabeceira, herança de algum avô, uma garrafa de gim (dois terços vazia), um abajur esquecido aceso, marcas redondas de dedo no pó, e um telefone vermelho que toca.

No cômodo contíguo, uma voz quebradiça de menina repete: L mais A, LA, L mais E, LE, L mais I, LI, L mais O, LO, L mais U, LU.

A agulha encontra um arranhão, ha ha ha ha, ha ha ha ha, ha ha ha ha...

terça-feira, 20 de maio de 2008

Criar um espaço para...

Uma sala de vinte metros quadrados. Num canto, uma grande e pesada escrivaninha de madeira maciça, escura, que encobre parte de uma cadeira de couro marrom; noutro, uma cristaleira no mesmo estilo. Em toda parte, uma infinidade de objetos cuja contagem e descrição levariam dias. Pequenos tesouros afetivos, como a coleção de corujas. De todos os tipos, cores e tamanhos. Duzentas, talvez. Uma delas, multicolorida, pintada numa caixa de fósforo, lembrança da Colômbia; outra, de pano, presa por um alfinete a um quadrado de madeira, presente de um certo Romeu; uma terceira, de mármore branco. Muitos livros, de assuntos variados, em inglês, francês, português e catalão. Dezenas de dicionários, velhos e novíssimos. Um globo de pedra. Disputando o título de mais pesado da sala com a escrivaninha e o armário. Levíssimas e escassas partículas de poeira.

O quarto de

(Acho que ousei bastante. E acabei me impondo um exercício de estilo.)

As paredes do quarto são de um branco ininterrupto, sem quadros, sem espelhos, sem estantes ou prateleiras. Mergulhando por trás da cabeceira da cama, com as escamas pintadas em dois tons de azul e uma esteira de purpurina no lombo, some a cauda de uma sereia. No criado mudo do lado direito, sepultando-o, dezenas de livros formam uma montanha. No criado mudo do lado esquerdo, há um abajur e um copo transbordando água. O carpete do chão é de um gris claro imaculado. A mobília é simples, essencial e esvaziada. De um lado, duas cadeiras e uma mesa encostam-se à parede. Do outro, perto dos pés da cama, duas poltronas de vime cercam uma mesa baixa. Em um canto, com a tela virada para a parede, há um aparelho de TV. Em um outro canto, sobre guias telefônicos gastos, há um notebook iluminado, conectado a uma tomada. Na telinha do computador, uma atleta cruza a linha de chegada. Jogados no carpete sem cuidado, misturam-se uma calça, uma camiseta, umas meias e um par de sapatos.

Descrição criativa e narração que deriva do objeto:

O objeto se traduz em um pedaço de papel rígido — papelão branco — quadrado em sua forma, com uma área em torno de seis centímetros quadrados. Nessa pequena “bolachinha” de papelão há um desenho de um homem com aparência semelhante ao próprio dono. Em caneta azul, o homem parece envolto por incontáveis espirais, que tomam as sobras brancas do pequeno papel. De óculos e com cabelos bem crespos, expõe uma fisionomia preocupada. Com nariz alongado e rosto comprido, não revela de imediato a sua identidade, flagrada pela quase insignificante inscrição à direita: “Gutenberg”, sugerindo ser o alemão Johannes Gutenberg, aquele que primeiro contribuiu para a tecnologia da impressão e da tipografia no mundo, no século XV. O outro lado da “bolachinha” está completamente vazio, branco.

Gutenberg impresso em uma bolachinha de papel. Impresso apenas de um lado, deixando o outro vazio. Aquele que primeiro imprimiu na história surge pensativo no desenho, envolto em idéias espirais, tomando completamente o seu espaço. Como poderia ter adivinhado ele que estaríamos todos, hoje, em pleno novo milênio, assoberbados de espirais em torno de nossas mentes? O gênio da impressão literalmente desenhado e condensado em nódulos impressos. Estamos nós, também condensados em nossos mundos, impressos em nossas verdades, estáticos em nossas possibilidades? Como Gutenberg comprimido naquele papel. Gênio impresso ele é hoje, como nós, estampados na desordem do nosso tempo. Ninguém tem se lembrado, como Gutenberg significa no pequeno papel, de procurar pelo vazio do lado oposto. Você se lembra? Ou fica entre as espirais da vida moderna? Essas espirais do século XXI que pressionam a nossa cabeça.

Criar tipo característico para...

Aymah. Seu nome inscrito bem acima do espelho para identificar seu local reservado. Uma bolsa de água quente aquece a pequena poltrona de couro vermelho enquanto a dona não termina seu trabalho. Seu espaço se resume a mais ou menos um metro e meio de comprimento por um metro de largura. Em frente, imagens que se refletem no grande espelho. Em ambos os lados do espelho, painéis de cortiça exibem fotografias com imagens da terra natal de Aymah: o Japão; e, as instruções para uma metódica dieta seguida pela trupe. Na bancada, logo abaixo do espelho, estão todos os cremes para retirada da maquiagem, pincéis, lápis de olhos, blushes, sombras e batons. Há, ao lado das plumas vermelhas, uma caixinha de algodão e outra de lenços de papel. O copo d’água sempre repousa sobre a superfície e esvazia-se lentamente conforme ela se organiza para acompanhar o espetáculo. Na gaveta, na lateral, abaixo do painel de cortiça do lado direito, há chocolates. Doces que fazem doer menos. Doces que trazem a única alegria até a volta para casa.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A moeda da Mariza

A moeda e o beijo

Moedas são comuns. A de um real tem mais valor. Compra mais. Ninguém despreza. Tem o miolo prateado, a borda dourada. Tem a cara e o número Um.



- Cara ou coroa?

Os dois pitocos disputavam a beijoca da Tininha. Todo mundo gostava da Tininha, mas ela disse que só daria um beijinho. E só seria na bochecha do Zezinho ou na bochecha do Bebeto. Zezinho porque era bem comportado e Bebeto porque fazia muitos e muitos gols na Educação Física. Pobrezinhos, pois! Tão novinhos, tão apaixonados e já acuados pela crueza feminina assim tão de perto, assim tão cinqüenta por cento. Cruel isso tudo. Mas Tininha valia a peleia. Era uma menininha cheia de graça, cheia de si.

A moeda era grande, muito maior que as pontas gorduchas dos dedinhos apaixonados. Zezinho olhou para a moeda, pensou, olhou mais um pouquinho e disse:

- Como assim cara ou coroa? Tem a cara da princesa, mas não tem a coroa do rei! Não quero mais brincar. Vou perguntar para a Tininha quem ela prefere beijar e pronto! Assim é mais fácil!

Coragem Zezinho, vá com calma, meu amiguinho. E se ela disser que prefere o Bebeto? Aí sim tu vais descobrir as lamúrias do amor...

- Não, não, não Zezinho! Assim não vale! Tem que ser na sorte, na moedinha. Mamãe disse que é feio trapacear. Vamos fazer assim: Cara ou Número Um?

- Tá bom, Bebeto. Assim tudo bem.

Jogaram a moedinha brilhante, brilhante que rodopiou três vezes e caiu no Um. Tininha perguntou:

- Daí gurizes? Quem ganhou?
Xiiii... Senti algum esquecimento no ar. Ai, ai rapazinhos: faltou escolher os lados. O beijo ficou sem dono!
Tininha agarrou a moeda sem dó. Correu e pediu para a profe comprar um chocolate bem grande.

Descrição de espaço para...

A sala de 30 metros quadrados tem espelhos e barras horizontais em todas as paredes. O chão é especial, um tablado em Imbuia com tecnologia para absorção de impactos. Nos espelhos, estão estrategicamente dispostas fotografias emolduradas da década de 70. Uma mesma bailarina figura em todas: em espetáculos, camarins, em aula ou simplesmente fazendo pose. Espanta a magreza doentia da bailarina. Sobre o aparelho de som, logo abaixo da janela que dá para um pequeno pátio, destaca-se uma outra fotografia. Parece ser a mesma bailarina só que em trajes comuns. Ainda magérrima, fica evidente a barriga enorme, apontando o final de uma gestação. Sorri muito na foto. Há uma espécie de bengala de madeira escorada em um dos cantos. Atrás da porta, estão penduradas sapatilhas bem pequeninas, de uma criança. Abaixo das sapatilhas, uma placa cor de rosa enfeitada diz: mãe e filha dançam aqui.