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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Atitude

Cíntia e Alfredo já haviam chegado. Sentados na varanda, tomavam chimarrão com o pai enquanto esperavam Olívia, a irmã mais nova, encostar o carro.
- Oi pessoal, desculpem o atraso – disse ela ao subir o último degrau. Beijou e abraçou o pai que, depois de perguntar sobre a viagem, pediu-lhe que sentasse ao seu lado. Aquela conversa não seria fácil, por certo.
- Olívia – falou Alfredo, o irmão mais velho. – Já adiantei à Cíntia que está muito difícil cuidar da estância. E prosseguiu a falar sobre como as coisas mudaram desde que a mãe morrera. Dois homens sozinhos em uma casa, o pai doente, sem poder ajudar com nada, nem mesmo com os animais.
- Sei disso. Por que, então, não vendemos a fazenda e compramos um sítio? – sugeriu Olívia. - É menos trabalhoso. Mas Alfredo, de olhos baixos, disse-lhes que já estava cansado de viver no interior. Na verdade, havia conseguido um emprego na serralheria da cidade.
- Mas o pai precisa de companhia – falou Cíntia. – Alguém que cuide dele o tempo inteiro.
Cíntia morava na cidade vizinha com o marido e dois filhos.
- Uma mulher seria o ideal – precipitou-se Alfredo.
-Talvez – respondeu Olívia. – Ou alguém preparado para cuidar com carinho de pessoas idosas – e logo emendou: - na verdade, de pessoas especiais.
O pai, que ouvia a tudo quieto, sabendo do peso que se tornara para os filhos, primeiro disse-lhes que ele havia cuidado do nono deles até o fim. Mas entendia que os tempos eram outros e que cada um tinha seus compromissos e a própria família. Por fim, comunicou o consentimento que todos, entre receios e dor, queriam ouvir:
- Façam comigo o que acharem melhor.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Criar um espaço para ...

A luz do salão principal é fosca. O lugar é amplo e bem arejado, com janelões de ferro e vidro, ornados com cortinas clássicas em tons pastéis e marinho, bom para dissipar a fumaça dos charutos e das velas. Há muitos lugares para sentar, normalmente ocupados. Grandes vasos de vidro, que nascem do chão, abrigam ramos de lírio e copos-de-leite. Das paredes pendem telas antigas, abstratas, pintadas pelo mesmo alguém cujo nome não é legível. Ao lado da porta principal está o piano, sobre ele, os cinzeiros limpos. No fundo da sala, o bar. Bancos altos e estofados, bancada de madeira lustrosa e escura como o assoalho, muitas bebidas. Sentado no último banco, um homem calvo acaricia nostalgicamente o saxofone, fazendo-o gemer alto.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Logorrali

Logorrali

Ele chegou à porta, ligou a lanterna e deu um suspiro. Suspiro de admiração, puro deleite. Amélia, bela mulher, sorria em admirá-la. Melhor noite de sua vida. A luz da lanterna, por certo, não atrapalharia o sono da amada . Não podia evitar cobri-la de mimos, trouxe-lhe, desta vez, um Cervantes. Notara quando Amélia folheou-o na livraria, como a uma relíquia. Parecia não conseguir devolvê-lo à estante.
Amélia, fingindo dormir, deixou que ele, silencioso, largasse o pacote no lado esquerdo da cama. Na manhã anterior, quando passeavam pelos cafés e livrarias, cedo ela teve uma intuição: se comprasse o James Joyce, jamais ganharia o Cervantes. Harold era observador. Fez bem em devolver o James Joyce. Quem sabe não se depararia com Don Quixote na manhã seguinte? Ah, adorável Harold, que homem previsível.
Abriu os olhos e viu o pacote. Precipitou-se em pegá-lo. Harold a espionava atrás da cortina.
-Cervantes! Exclamou às gargalhadas. – Ah, adorável Harold que homem... O cachorro adentra latindo de forma descontrolada, denuncia o esconderijo de Harold. O cão revelou-se indigno de sua raça.
Harold fica sem graça.
- Cão inoportuno. Queria apenas te olhar dormindo antes de ir embora.
Amélia sorri e lhe estende os braços.
- Assim me deixas mal acostumada. Cervantes, como adivinhaste?
Ele vai até ela, lhe dá um beijo demorado e pede que o espere bem cheirosa, pois à noite voltará. Despede-se e vai.
Amélia rola na cama, prosseguem as gargalhadas. Fica de bruços a estudar as novas artimanhas que utilizaria nesta noite: “ele não escaparia”.

Jantar à luz de velas, vinho tinto, cabernet sauvignon, música romântica, carícias, acabaram a noite sem muitas surpresas. Harold passaria o final de semana com ela, no apartamento. Era sábado e sua esposa estava viajando.
Pediram comida chinesa, comeram na sala e assistiram TV ao acaso. Foram de novo pra cama, levando as taças de vinho. Preguiças de uma tarde morna, janelas cerradas, refúgio de amantes.
O telefone toca e Amélia pede um tempinho, vai atendê-lo na sacada. Num impulso, Harold pega a extensão. “Sim, ele ainda está comigo, no apartamento.”; “claro, conforme havíamos combinado, Cristina, esta tarde ele já estará morto”. Harold sente fisgar as costas. A outra voz é conhecida: Cristina, sua esposa. “Tudo, tudinho. Como você falou, até já ganhei o Cervantes.” “Sim, coloquei no vinho”. A TV, na sala deserta e escura, transmitia para as moscas os funerais da princesa; ele, entretanto, apenas agonizava. “Quero o depósito hoje”. Harold sente a garganta queimar. “É questão de horas, talvez minutos”. E fica com a visão turva. A TV prossegue noticiando coisas inúteis: o governador nesse dia, baixou um decreto instituindo uma nova condecoração. A ligação termina. Amélia retorna sorrindo.