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segunda-feira, 19 de maio de 2008

A moeda da Mariza

A moeda e o beijo

Moedas são comuns. A de um real tem mais valor. Compra mais. Ninguém despreza. Tem o miolo prateado, a borda dourada. Tem a cara e o número Um.



- Cara ou coroa?

Os dois pitocos disputavam a beijoca da Tininha. Todo mundo gostava da Tininha, mas ela disse que só daria um beijinho. E só seria na bochecha do Zezinho ou na bochecha do Bebeto. Zezinho porque era bem comportado e Bebeto porque fazia muitos e muitos gols na Educação Física. Pobrezinhos, pois! Tão novinhos, tão apaixonados e já acuados pela crueza feminina assim tão de perto, assim tão cinqüenta por cento. Cruel isso tudo. Mas Tininha valia a peleia. Era uma menininha cheia de graça, cheia de si.

A moeda era grande, muito maior que as pontas gorduchas dos dedinhos apaixonados. Zezinho olhou para a moeda, pensou, olhou mais um pouquinho e disse:

- Como assim cara ou coroa? Tem a cara da princesa, mas não tem a coroa do rei! Não quero mais brincar. Vou perguntar para a Tininha quem ela prefere beijar e pronto! Assim é mais fácil!

Coragem Zezinho, vá com calma, meu amiguinho. E se ela disser que prefere o Bebeto? Aí sim tu vais descobrir as lamúrias do amor...

- Não, não, não Zezinho! Assim não vale! Tem que ser na sorte, na moedinha. Mamãe disse que é feio trapacear. Vamos fazer assim: Cara ou Número Um?

- Tá bom, Bebeto. Assim tudo bem.

Jogaram a moedinha brilhante, brilhante que rodopiou três vezes e caiu no Um. Tininha perguntou:

- Daí gurizes? Quem ganhou?
Xiiii... Senti algum esquecimento no ar. Ai, ai rapazinhos: faltou escolher os lados. O beijo ficou sem dono!
Tininha agarrou a moeda sem dó. Correu e pediu para a profe comprar um chocolate bem grande.

Descrição de espaço para...

A sala de 30 metros quadrados tem espelhos e barras horizontais em todas as paredes. O chão é especial, um tablado em Imbuia com tecnologia para absorção de impactos. Nos espelhos, estão estrategicamente dispostas fotografias emolduradas da década de 70. Uma mesma bailarina figura em todas: em espetáculos, camarins, em aula ou simplesmente fazendo pose. Espanta a magreza doentia da bailarina. Sobre o aparelho de som, logo abaixo da janela que dá para um pequeno pátio, destaca-se uma outra fotografia. Parece ser a mesma bailarina só que em trajes comuns. Ainda magérrima, fica evidente a barriga enorme, apontando o final de uma gestação. Sorri muito na foto. Há uma espécie de bengala de madeira escorada em um dos cantos. Atrás da porta, estão penduradas sapatilhas bem pequeninas, de uma criança. Abaixo das sapatilhas, uma placa cor de rosa enfeitada diz: mãe e filha dançam aqui.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

Happy Hour Criativo

Gente querida,

Durante o intervalo de ontem, surgiu a idéia de nos reunirmos em um barzinho depois da nossa próxima aula. O que vocês acham? Eu sugiro o Natalício, um boteco bem legal que fica quase em frente ao Senac. Podemos nos organizar em caronas, cacundas, bus, táxis, passeata rsrsrs... É bem fácil de chegar. Tenho certeza que iremos nos divertir!

Um beijo,

Juliana (a que senta ao fundo, ao lado do Mauro e de costas para o Cícero)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Ele chegou à porta, ligou a lanterna e deu um suspiro. Não queria ter a mesma visão de sempre. Estava cansado de todo aquele vazio, de todas aquelas sombras que faziam da casa a sua própria extensão. Nesses dias de clareza profunda e dolorida, Paulo costumava passar na livraria Colóquio. Um pouco de fantasia não retalharia ainda mais a sua realidade. E só uma coisa o consolava e não era, contudo, a livraria. A solidão só era menos bruta pela companhia de Cervantes, o cão dado de presente pela mãe. Desde cedo ela teve uma intuição: se comprasse o James Joyce, jamais ganharia o Cervantes. E a mãe estava certa. Letrados são fiéis à dor, invejosos da própria piedade. Por conta disso, ela desistira dos livros e de todo e qualquer traço intelectual- só não deslembrara a ironia.

A mãe de Paulo preferia os cães. Todos os seus cães sempre foram Cervantes. Assim como agora se chamava o cão de Paulo. Uma herança vertical de dinastia canina. Mas até ele, o décimo segundo cão Cervantes, parecia obscuro sob aquele teto sem chão. Sentiria a morte o cão também? Haveria tempo para um próximo Cervantes? O cão revelou-se indigno de sua raça. E de todas as expectativas que lhe foram impostas. Era um dos espectros sem cor que transfiguravam a cena; como Paulo, o pobre coitado empunhando lanterna em rompante de lucidez.

Sentou-se na poltrona abóbora, quase marrom de tanto pó, tanto pêlo, tanto medo. Cervantes aos pés de Paulo era figura de consolo entre os poucos trapos de vida que o infeliz se permitia carregar. Acabaram a noite sem muitas surpresas. Um velando ao outro e à própria solidão compartilhada. Um ato de solidariedade às imagens que os assistiam.

A TV, na sala deserta e escura, transmitia para as moscas os funerais da princesa; ele, entretanto, apenas agonizava. Sim, o governador era um insensível, não havia dúvidas. Não importava a tristeza de Paulo, a impotência de Cervantes e nem a morte da doce princesa. Nem a audiência das moscas constrangia o governante. As imagens denunciaram toda a agonia pueril de quem sempre conhece o desfecho exato do amanhã. O Governador, nesse dia, baixou um decreto instituindo uma nova condecoração. Luto se respeita, é o que dizem os ortodoxos. Menos mal que Paulo e Cervantes dormiram a manhã inteira e o novo decreto lhes passou despercebido.

E as moscas? As moscas estavam longe, a varejar outros resquícios de final de ilusão. Algum outro Dom Quixote haveria de existir naquele Reino.