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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Idéia para motivo de livro

Minha idéia é... tchanám! O amor! Em todas suas formas. E meus motivos são:

1) "É só o amor, é só o amor / que conhece o que é verdade!" (R. Russo (ou é Camões?))
2) É o amor "che move il Sole e l’altre stelle" (Dante)
3) Os contos apresentados até agora (Ana, Ana, Viviane, Cícero) tratam de um jeito ou outro sobre o amor.
4) O mundo está precisando de amor, não é?

sexta-feira, 4 de julho de 2008

200 anos da família Fagundes em quinze linhas

Lídia Fagundes não tem descendência. Casou-se, separou-se, e casou-se de novo, mas não teve filhos porque acha que o mundo está prestes a acabar. Teve nove irmãos, dos quais oito já morreram – na guerra. Salvou-se só Bernardo, que sempre foi diferente, nunca teve o sentimento de pertencer à uma comunidade, nem sequer à família – imaginem então se ia lutar pelo país. Em vez disso, isolou-se em seu mundinho de fumadores de maconha, e por isso foi imediatamente repudiado pelo pai, Odílio Fagundes, coronel do 6º Batalhão de Engenharia de Combate do Exército. Odílio dedicou toda sua vida ao Exército, mas foram, esses, tempos de paz. Deixou seus dez filhos ao cuidado de Marília, seguindo nisso o exemplo de seu pai, Rodrigo, também militar. Rodrigo Fagundes nunca disse com exatidão quantos filhos teve – às vezes eram cinco, às vezes eram seis –, nem se os teve todos com Raquel, sua mulher. Rodrigo era filho de um padre, o Padre João Ambrósio, da Igreja da Santa Maria da Puríssima Conceição, que foi excomungado pela Santa Sede por não cumprir os votos e por outros desmandos. Da união dele e uma mulher cujo nome se perdeu nasceu Rodrigo, e dizem as más línguas que ele teve outros seis irmãos, bastardos. O Padre Ambrósio sempre o negou. Difícil saber, só resta a lenda, já se passaram quase 200 anos.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Sobre o implícito

Para entender o implícito, acho legal esta letra do Bob Dylan, onde, o mais importante, ele diz em quatro palavras, que não dizem nada e dizem tudo. Serve também, quase qualquer conto de Hemingway, eu acho. Mas esses não dá para postar aqui. Tem um tão legal, The Big Two-Hearted River, muito longo, dividido em duas partes, que trata de um jovem que sai, sozinho, dois dias, para pescar. A descrição do rio, as águas, a pesca, etc., é tão boa que para mim isso foi tudo. Só anos depois li que nesse conto estava implícito o assunto da guerra. Não me lembro bem se o jovem tinha escapado de ir à guerra, ou tinha um trauma de guerra. Mas de tão implícito, ou de tão maravilhoso que era "o superficial", eu não percebi. Bom, nas quatro palavras "vazias" do Bob Dylan dá para perceber que o "narrador" (vale isso para letras de música?) está dizendo tudo menos o mais importante.

Most of the time
I'm clear focused all around,
Most of the time
I can keep both feet on the ground,
I can follow the path, I can read the signs,
Stay right with it, when the road unwinds,
I can handle whatever I stumble upon,
I don't even notice she's gone,
Most of the time.

Most of the time
It's well understood,
Most of the time
I wouldn't change it if I could,
I can't make it all match up, I can hold my own,
I can deal with the situation right down to the bone,
I can survive, I can endure
And I don't even think about her
Most of the time.

Most of the time
My head is on straight,
Most of the time
I'm strong enough not to hate.
I don't build up illusion 'till it makes me sick,
I ain't afraid of confusion no matter how thick
I can smile in the face of mankind.
Don't even remember what her lips felt like on mine
Most of the time.

Most of the time
She ain't even in my mind,
I wouldn't know her if I saw her
She's that far behind.
Most of the time
I can't even be sure
If she was ever with me
Or if I was with her.

Most of the time
I'm halfway content,
Most of the time
I know exactly where I went,
I don't cheat on myself, I don't run and hide,
Hide from the feelings, that are buried inside,
I don't compromised and I don't pretend,
I don't even care if I ever see her again
Most of the time.

terça-feira, 20 de maio de 2008

O quarto de

(Acho que ousei bastante. E acabei me impondo um exercício de estilo.)

As paredes do quarto são de um branco ininterrupto, sem quadros, sem espelhos, sem estantes ou prateleiras. Mergulhando por trás da cabeceira da cama, com as escamas pintadas em dois tons de azul e uma esteira de purpurina no lombo, some a cauda de uma sereia. No criado mudo do lado direito, sepultando-o, dezenas de livros formam uma montanha. No criado mudo do lado esquerdo, há um abajur e um copo transbordando água. O carpete do chão é de um gris claro imaculado. A mobília é simples, essencial e esvaziada. De um lado, duas cadeiras e uma mesa encostam-se à parede. Do outro, perto dos pés da cama, duas poltronas de vime cercam uma mesa baixa. Em um canto, com a tela virada para a parede, há um aparelho de TV. Em um outro canto, sobre guias telefônicos gastos, há um notebook iluminado, conectado a uma tomada. Na telinha do computador, uma atleta cruza a linha de chegada. Jogados no carpete sem cuidado, misturam-se uma calça, uma camiseta, umas meias e um par de sapatos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Conto criado a partir da caixa de fósforos de Marinella

Fósforos de cor azul maia e palito tão fino que dá medo de usar


Fósforos de cor azul maia e palito tão fino que dá medo de usar. Azul fusão entre o índigo e a paligorsquita: o menino disse. Eu, eu não sei o que é. Fósforos da cor mais bela que eu já vi: azul maia de Chichén Itzá. Cor sagrada maia. Fósforos, quem sabe, sagrados também. 23 fósforos escondidos em uma caixinha pequenina que não lhes faz justiça, com as cores banais da bandeira colombiana e a frase “Cerillas de Colombia”. Caixinha bonitinha. Com, na outra face, uma coruja de olhos amarelos exorbitantes sobre fundo preto. Comprada em Tuluá.

Paligorsquita, o menino repetiu. Três vezes: Pa-li-gors-quita. Qui-ta. Usté no entiende? Vu né comprené pá? O menino não se desesperou, quis fazer-se entender. Só não falava português. Mas quando soube que éramos de São Paulo falou de uma assentada os nomes e sobrenomes de todos os presidentes do Brasil. Crianças pobres espertas da América do Sul. A coruja, ele disse, esticando o braço, aproximando-a do meu nariz, era um deus maia. Isso eu não sei se acreditar. Difícil acreditar nessas crianças. Mas o azul maia. Esse índigo com paliguinquita, que mesmo que fosse combustível eu não queimaria. Não sou religiosa. Mas aquela criança, aqueles olhos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Logorrali de frases

Bom, eu me animo com o resultado do exercício maluco proposto pelos senhores Assis/Queneau...


“Ele chegou à porta, ligou a lanterna e deu um suspiro”. Não ia começar desse jeito porque nem sabia quem era “ele”. Mas seria alguém que gostasse de literatura. Fosse "ele" ou "ela". Então. Primeira frase: “Cedo ela teve uma intuição: se comprasse o James Joyce, jamais ganharia o Cervantes.” Mas que besteira. O Cervantes, quando ele nem escrevia em espanhol. Não que não pudesse merecer esse prêmio algum dia. Porque, a fim de contas, ele não era como aquele colega da Academia. O cão revelou-se indigno de sua raça, acabou escrevendo comerciais de iogurte. Ainda sem começo, recorreu ao jornal. Leu um pé de foto: “Acabaram a noite sem muitas surpresas”. Quem era que escrevia os pés de foto dos jornais? E quem se importava com a noite daquele casal da foto? A TV, na sala deserta e escura, transmitia para as moscas os funerais da princesa. Ele, entretanto, apenas agonizava sobre o teclado do computador. Podia se inspirar nessa morte que transtornara o país, que o virara de cabeça para baixo. De certo tal romance ia virar um best-seller. Foi para a cama dando voltas a essa idéia. E, no dia seguinte, a segurou. Porque o Governador, nesse dia, baixou um decreto instituindo uma nova condecoração para quem melhor louvasse a bela e jovem princesa morta.